Uma pausa com Soares de Passos

Inaugurada no dia 18 do mês passado, a nova secção do megalómano Parque dos Poetas, em Oeiras, permitiu-me descobrir alguns autores e reencontrar outros já quase perdidos nos confins da (pouco fiável) memória. Entre as descobertas conta-se António Augusto Soares de Passos (1826-1860), de quem aqui fica o poema Desejo, ilustrado por fotos que tirei na sua ‘ilha’.

“Oh! quem nos teus braços pudera ditoso
No mundo viver,
Do mundo esquecido no lânguido gozo
D’infindo prazer.

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Bairro da Graça, Violant e Florbela Espanca

Esta peça de João Maurício (a.k.a. Violant) insere-se no projecto Passeio Literário da Graça, de 2014, que tem como objectivo homenagear e mostrar a obra de escritoras com ligação àquele bairro da capital e, ao mesmo tempo, intervir na paisagem urbana. As escritoras são: Natália Correia, Angelina Vidal, Sophia de Mello Breyner Andresen e Florbela Espanca.

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Dente-de-leão, Primavera e Whitman

“Simple and fresh and fair from winter’s close emerging,

As if no artifice of fashion, business, politics, had ever been,

Forth from its sunny nook of shelter’d grass-innocent, golden, calm as the dawn,

The spring’s first dandelion shows its trustful face.”

The First Dandelion, de Walt Whitman, em Leaves of Grass

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“Sombras na água”

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“Thus did I by the water’s brink

Another world beneath me think;

And while the lofty spacious skies

Reverséd there, abused mine eyes,

  I fancied other feet

  Came mine to touch or meet;

As by some puddle I did play

Another world within it lay.”

Excerto do poema Shadows in the water, de Thomas Traherne (1636 ou 1637 – 1674)

Uma pausa com borboletas e Emily Dickinson

“Two butterflies went out at noon

And waltzed above a stream,

Then stepped straight through the firmament

And rested on a beam (…)”*

*excerto de Two butterflies went out at noon, de Emily Dickinson (1830-1886)

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“Duas borboletas saíram ao meio-dia

E sobre um riacho valsaram

Em seguida rumaram ao firmamento

E num raio de luz descansaram (…)”

O futuro da poesia

Esta quinta-feira saberemos quem é o vencedor do prémio Foyle Young Poets of the Year, maior concurso de poesia do mundo – este ano contou com 7.478 inscrições, oriundas de 74 países. Hoje o jornal britânico The Independent revela trechos de poemas dos 15 finalistas, cujas idades variam entre os 12 e os 18 anos. Entre as passagens seleccionadas há várias inspiradas na Natureza. Esta é a minha preferida:

Swallows

The nest that halved itself against the wall
the tightly woven sticks and clay of love, or instinct.
The swallows: quick, sweet shadows that forked and lit over the beam…”

Imogen Cassels, 17 anos, Sheffield

“A morte de um (poeta) naturalista” – R.I.P. Seamus Heaney

A carreira que começou em 1966 com a publicação de “Death of a Naturalist” teve o reconhecimento máximo em 1995 com a atribuição do Nobel da Literatura. Considerado o segundo melhor poeta irlandês – logo a seguir a W. B. Yeats –,  Seamus Heaney (13/04/1939 – 30/08/2013) foi um atento observador da natureza, qualidade que transparece ao longo da sua obra. Em “A Peacock’s Feather” (1987) lê-se:

“I come from scraggy farm and moss,

Old patchworks that the pitch and toss

Of history have left dishevelled ….”

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Uma pausa com António Ramos Rosa

O JARDIM

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz“.

António Ramos Rosa*, in Volante Verde (1986)

*poeta português

 

Uma pausa com…

… Robert Frost*

The bear puts both arms around the tree above her
And draws it down as if it were a lover
And its choke cherries lips to kiss good-bye,
Then lets it snap back upright in the sky (…)”

in The Bear

“A ursa envolve com ambos os braços a árvore que lhe é mais alta / E puxa-a para baixo como se fora um amante / E as suas cerejas esmagadas fossem lábios num beijo de despedida / Depois larga-a para que de novo se erga  em direcção aos céus (…)”

* poeta norte-americano (1874-1963)