Sobre o proibir a entrada em Lisboa a carros anteriores a 2000

À primeira vista a decisão da Câmara de Lisboa de proibir a circulação de carros com matrícula anterior a 2000 em certas áreas da cidade parece estapafúrdia. À segunda também.

É certo que são necessárias medidas que diminuam a poluição (nomeadamente os níveis das PM10 – partículas inaláveis de diâmetro inferior a 10 micrómetros – e do NO2 – dióxido de azoto) que prejudica a saúde humana, indo ao encontro dos limites estabelecidos por Directivas europeias. Mas a decisão camarária assenta na lei da menor esforço e, infelizmente, também vai ao encontro de outro objectivo da Directiva que é, nesta Europa comandada pela Alemanha e pela França (com os resultados que todos os europeus conhecem e sentem na pele), proteger a indústria automóvel destes dois países.

car

Existiam alternativas? Sim. Note-se que há carros com matrícula anterior a 2000 que podem circular desde que instalem um catalisador – que custa entre 100 euros e 600 euros – para reduzir a emissão destas partículas, mas pouco ou nada se fez/faz para divulgar esta informação, pois o que é preciso é vender carros novos. No entanto, a alternativa mais óbvia, mas mais trabalhosa, era “reinventar” o transporte público (embora não tão trabalhosa como criar condições para que se viva e se trabalhe na cidade, evitando assim a necessidade de circular de carro). Como? Com transportes mais fiáveis, ou seja, que cumpram horários e que não avariem tanto (principalmente no caso do metro); com mais transportes, de forma a que não se viaje como sardinha em lata; com mais segurança; e com preços mais acessíveis para os utilizadores.

Por exemplo, aqui em Perth, Austrália Ocidental, no centro da cidade os transportes públicos são gratuitos e há autocarros movidos a hidrogénio. (Não pense que aqui tudo funciona bem. Os transportes terminam demasiado cedo – cerca das 10h da noite – e a “noite” acaba cada vez mais tarde, pelo que, numa cidade gigantesca, as pessoas deslocam-se de carro até aos locais de diversão, bebem, e depois não há semana em que um condutor alcoolizado não entre quintal – e casa – adentro de um qualquer infeliz. E na periferia da cidade há ruas sem passeios, porque não passa pela cabeça desta gente que alguém se desloque a pé e não de carro).

Noutros países fora da Europa há quem combata a poluição e o excesso de carros nas cidades com proibições mais justas e, suponho, mais eficazes – algo como: numa semana só circulam carros com matrícula par e noutra só carros com matrícula ímpar.

Fora desta questão da poluição em Lisboa ficou o famoso CO2 e o resto do ambiente. Um carro novo de alta cilindrada emite mais CO2 que muitos utilitários pré-2000. Imagine-se barrar a entrada em Lisboa aos cada vez mais ricos e não ao mexilhão… Mexilhão que, em vez de ser premiado por preservar o ambiente e conduzir o mesmo carro durante mais de 10 anos – poupando todas as emissões e matéria prima associadas à construção de um carro -, é agora impedido de circular na avenida dita da Liberdade, ainda que pague o Imposto Único de Circulação e que tenha carro inspeccionado e aprovado pelo IMTT, que até pode ser igualzinho a um carro de 2001… Mexilhão que pagou as trafulhices da banca e que agora prepara-se para vender o carro e endividar-se para comprar um novo, de que não necessita, mas que alguém precisa vender. E este belo carro novo terá peças feitas para durar 1/5 do tempo que duravam as antigas e terá design moderno, com faróis traseiros de peça única e área exagerada, estendendo-se para cima, para baixo e para os lados do carro, de forma a aumentar a probabilidade de serem atingidos num qualquer toque na estrada, obrigando à substituição de toda a dispendiosa peça. Mexilhão que continuará exposto a partículas nocivas à sua saúde, já que os níveis em 2013 continuavam a ser mais do dobro do permitido por lei, e dificilmente esta medida grosseira resolverá a situação.

Related posts / Posts relacionados: