Avieiros: história e preservação da memória

O saveiro era um dos barcos que tinha de entrar no livro “Barcos – Mar de Imagens e Palavras”. (re)Descobri-o quando escrevi uma reportagem sobre os avieiros do Tejo. Em baixo encontra o texto integral, que foi publicado em 2009 na revista Gingko. Desta vez ilustram-no fotografias que tirei na aldeia da Palhota.

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O POVO DO RIO

PARA SOBREVIVEREM NO INVERNO TROCAVAM A VIDA DO MAR PELAS ÁGUAS MAIS CALMAS DO TEJO E DO SADO. E FORAM FICANDO… CONHEÇA ESTE POVO DAS MARGENS DO RIO E O QUE SE ESTÁ A FAZER PARA PRESERVAR E DIVULGAR A SUA CULTURA QUE É CANDIDATA A PATRIMÓNIO NACIONAL.

Sente-se a senhora.

– Não, sente-se você. Eu preciso de ficar em pé. Passo o dia todo sentada, a arranjar as redes do meu filho. Graças a Deus ainda vou podendo. Ainda vejo de uma das vistas. Aprendi a arranjar redes quando tinha onze anos.

– Que idade tem agora?

– Vou fazer 83 anos.

Júlia Margarida Guerra vive na aldeia avieira das Caneiras. Nasceu umas dezenas de metros mais acima, no local onde foram construídas as primeiras casas de canas, que deram o nome à aldeia. “Ali é que eram as Caneiras, mas o Tejo, com os temporais, levou as margens e obrigou toda a gente a vir para aqui”. Aprendeu  a remendar redes por necessidade.

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“Cada campanha precisava de sete homens. O meu pai sofria dos pulmões e teve de fi car de cama. Os outros disseram ‘vai para lá a Julita e faz a vez do pai’. Eram muito amigos do meu pai e, assim, eu ganhava a parte dele”. Na altura pescava-se com a varina – “era a pesca mais bonita!” –, uma rede de arrasto trazida da praia da Vieira de Leiria. É essa a terra de origem dos actuais avieiros do Tejo e do Sado.

Não se sabe ao certo quando começaram estas migrações internas… há cerca de 150 anos, talvez um pouco mais. A razão é clara. Nos meses de Inverno o mar revolto da praia da Vieira impossibilitava que os pescadores ganhassem a vida. Alguns rumaram a Sul – vinham de comboio ou nos próprios barcos – e encontraram sustento nas águas mais calmas do Tejo, onde abundavam espécies de valor comercial, como o sável.

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Muitos dormiam, trabalhavam e viviam nos barcos, com a família, e foram construindo pequenas casas, inicialmente utilizando canas. Findo o Inverno voltavam à praia da Vieira.

Aos poucos, cansados das dispendiosas idas e voltas, foram ficando. O Tejo garantia-lhes o ganha-pão e proporcionava ambiente menos hostil face às doenças respiratórias. Mas a vida continuava a ser dura. Os barcos, com 6,6 metros de comprimento e 1,6 metros de largura, eram ao mesmo tempo quarto, cozinha e oficina. Os pescadores locais não só tinham barcos maiores como os acusavam de acabarem com o peixe.

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Os “nómadas do rio”, como os apelidou Alves Redol no livro Avieiros, fixaram-se em pequenos povoados, substituíram as canas por madeira (único material permitido pela Capitania do Porto de Lisboa), que iam comprando à medida que juntavam dinheiro. As casas, assentes em pilares para resistirem às cheias do rio, eram pintadas com cores garridas, típicas da zona da Vieira – verde, vermelho e azul.

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NÓMADAS DO RIO

Caneiras é uma dessas aldeias. Quando o Tejo obrigou a que se mudassem uns metros mais para baixo “não havia mais do que dez casas”, recorda Júlia Guerra. Por essa altura, recém-casada, também ela construiu a sua barraca. Mas durante os seis meses de pesca a casa pouco mais era que uma memória. A vida fazia-se no barco. Só aos quatro anos é que o filho de Júlia Guerra começou a ficar em casa da sogra. “Em Janeiro começava a pesca e levávamos a cama, colchão feito de pano e com enchimento de camisas de milho, para o barco”, justifica Júlia Guerra.

Entretanto a varina foi substituída por redes mais pequenas, como a savara e a sabugar, e a pesca transformou-se numa actividade do casal.

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Assim, a rotina diária incluía a pesca durante a noite, e de manhã uma caminhada de seis quilómetros até Santarém para vender o peixe. “Levava o cesto à cabeça com o peixe… tenho-o ali como recordação… e o meu marido levava um saco numa bicicleta. Depois almoçávamos e íamos logo para o barco para guardar o lance. A gente não descansava. Era sempre a andar”, recorda. Durante a pesca era ela que remava, enquanto o marido lançava a rede. Era esse o papel das mulheres avieiras, que ajudavam também a puxar a rede já dentro de água. “Desde que houvesse peixe a gente ia para dentro de água, nem que houvesse uma camada de geada que desse pelo joelho. Passávamos muito frio no barco, mas quando apanhávamos peixe nem o sentíamos”, conta a avieira. E conclui: “Era uma vida muito amargurada. Bonita, mas muito amargurada”.

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NO ENCALCE DA HISTÓRIA AVIEIRA

Um estudo nos anos 80 contabilizou 80 aldeias avieiras ao longo do Tejo. Hoje, no Tejo e no Sado, são apenas catorze. Mas mantêm viva a memória de um povo que criou raízes nas margens do rio. É uma cultura única que importa divulgar e preservar.

Foi essa conclusão que tirou João Serrano, presidente e fundador da Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça (AIDIA), em 2006. E em conjunto com o antropólogo Aurélio Lopes decidiu candidatar a cultura avieira a património nacional.

Ambos interessavam-se pelos fenómenos sociais da região ribatejana. Começaram por estudar a celebração do Enterro do Galo, no Carnaval, e depois viraram-se para a aldeia avieira do Patacão, em Alpiarça. Mas rapidamente concluíram que a tarefa não seria fácil.

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“Verificámos que além de se estabelecerem no Tejo, também o fizeram no Sado. Percebemos que, pela amplitude geográfica, pela complexidade do fenómeno social, pelo período de tempo que durou o seu assentamento (mais de dois séculos), pela quantidade de acampamentos avieiros, pelos barcos, pelos apetrechos de pesca, pelo trajar, pelo cantar, pelo folclore, enfim, por ser uma cultura tão rica e tão profunda – além de ser uma cultura palafítica, única na Europa –, este património nacional, e possivelmente europeu”, opina João Serrano.

O estudo necessário para a candidatura a património nacional carecia, entretanto, de um projecto institucional. E a AIDIA foi o orgão certo para abordar o Instituto Politécnico de Santarém, com quem celebraram um acordo de colaboração. Os contactos prosseguiram e em apenas um ano o projecto já envolvia 24 pessoas e 65 instituições. Até que em 2008 surge uma proposta da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Regional para adaptar o projecto de maneira a concorrer ao Programa de Valorização Económica dos Recursos Endógenos (PROVERE).

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“A ideia inicial transformou-se num projecto de desenvolvimento económico com base no Tejo e na cultura avieira, que constituirá uma rota cultural e turística que começa na marina do Parque das Nações e acaba na Golegã”, esclarece João Serrano. Por se tratar de uma iniciativa de matriz económica, apenas 39 das 65 instituições se apresentaram a concurso com um total de 56 áreas de investimento, que, como explica João Serrano, “têm por mote a candidatura da cultura avieira a património nacional, e por sustentáculo o rio Tejo”.

O plano foi aprovado em Julho de 2009 e recebeu depois o patrocínio da Presidência da República. O PROVERE atribuiu 30 milhões de euros, que serão aplicados nos próximos três anos em oito projectos âncora e 48 projectos complementares, entre os quais a recuperação de todas as aldeias avieiras do Tejo; a construção de aldeamentos turísticos da Azambuja à Golegã; a investigação universitária sobre a viabilidade dos recursos do Tejo; o repovoamento do rio com sável e saboga; a construção do Museu do Tejo, no Cartaxo; a recuperação do dique de 20 quilómetros que liga os concelhos de Azambuja, Cartaxo e Santarém.

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Além do Instituto Politécnico de Santarém estão ainda envolvidas vinte empresas e investidores individuais, cinco Câmaras Municipais, duas universidades, quatro institutos de nível universitário, dois aeródromos, duas paróquias, três associações para o desenvolvimento, e uma associação empresarial. E tudo começou com a carolice de dois curiosos, apaixonados pelas singularidades das gentes da região.

Uma das entidades envolvidas num dos projectos âncora é a Associação dos Amigos das Caneiras, que espera recuperar já no próximo ano as oito casas mais degradadas da aldeia, construir dois portos fluviais e um centro interpretativo da cultura avieira.

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“A cultura avieira não se extingue naquilo que vemos. Há muita memória oral que tem histórias extraordinárias”, informa Luís Cosme, 50 anos, vice-presidente da Associação e avieiro nascido nas Caneiras. Mas algo lhe dificulta o caminho. “O povo avieiro é muito desconfiado e ocultou sempre os seus saberes. Tenho sido pressionado pelas pessoas daqui para não divulgar muita da informação que recolhi”.

Luís conta ainda que há segredos restritos a cada família, por exemplo, sobre a arte piscatória – lançar a rede, a maneira como a rede é feita, onde é lançada, a hora e local onde há mais peixe. “Lembro-me de ser miúdo e a minha tia dizer-me que os segredos da família não são para revelar a ninguém. E ainda é assim. Não era expulso, mas era posto de lado e nunca mais assistia a reuniões familiares”. Para manter este secretismo, peça-chave do sustento, cada família criou um vocabulário próprio, com frases e nomes que ainda hoje se mantêm. A desconfiança em relação ao exterior tem raízes profundas, nomeadamente na animosidade dos habitantes locais face aos primeiros avieiros, e na discriminação durante o século XX à medida que os contactos entre as comunidades se intensificavam. Luís Cosme recorda-se bem da vez em que foi eleito delegado de turma. Quando o facto chegou ao ouvido do director da escola, foi imediatamente destituído do cargo. “Por ser avieiro”, diz. A segregação via-se até na ausência de símbolos avieiros nos brasões das freguesias da borda-d’água. Apenas o de Alpiarça os ostentava, com dois cachos de uvas no topo, uma alfaia agrícola a meio e, na base, um rio com um barco avieiro.

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ESPERANÇA NO FUTURO

Hoje há maior integração, muito por causa do estatuto social que alguns filhos de avieiros alcançaram – nas Caneiras já moram avieiros que são médicos e advogados. A geografi a da aldeia espelha esta realidade. Três ruas paralelas ao rio. Na primeira e na segunda encontram-se as casas típicas avieiras, com a cozinha separada do resto da casa devido à memória de incêndios passados, e com estacas mais ao menos altas, ao sabor da prudência de cada um. Depois, intervaladas com campos agrícolas, surgem incaracterísticas casas de dois pisos, sem estacas nem madeira.

Em parte a mudança de vida resultou de ambição natural. Os pais queriam para os filhos uma vida melhor. Mas também se deveu à incapacidade do Tejo para assegurar o sustento. “Até aos anos 50 vivemos sempre da pesca. Mas com as indústrias à beira do Tejo o rio transformou-se numa lixeira”, lamenta Luís Cosme.

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Aos poucos, o peixe foi regressando. “No ano em que os estaleiros da Lisnave fecharam apanhámos 12.000 quilos de lampreia”, recorda. Contudo, devido às barragens, as migrações já não se regem pelas leis antigas. “Até 1970 a entrada do peixe no rio dependia da lua e do nascer e do pôr do dia. Agora depende das marés junto à barra”.

Hoje os avieiros resistem e adaptam-se aos caprichos da sociedade e da Natureza. “Esta luta contra a adversidade é congénita, tem a ver connosco. É um factor de identidade”, afirma João Serrano. E também por isso a cultura avieira é um património nacional.

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