Maria-café: o terror dos comboios!

A versão australiana da irritante mensagem “A circulação de comboios foi interrompida devido a uma avaria” é: “A circulação de comboios foi interrompida devido às marias-café portuguesas”. Pior. Por mais incrível que pareça, em Setembro passado a mensagem foi: “Os comboios chocaram por causa das marias-café portuguesas”.

Maria-café (Ommatoiulus moreletii), Odivelas

Bem, na verdade, eles chamam-lhe “portuguese millipede”, em alusão às numerosas patas e à origem geográfica (é uma espécie ibérica), mas a restante informação está correcta. O animal em causa é a maria-café (Ommatoiulus moreletii) – conhecida na Madeira por bicho-de-vaca ou vaca-preta –, artrópode que tem um par de patas por segmento (pertence à classe Diplopoda) e mede entre 2 e 4 centímetros.

Nos anos 50 do século passado foi acidentalmente introduzida na Austrália. Com poucos ou nenhuns predadores naturais a espécie reproduziu-se até atingir números que a classificaram como praga (por cá a espécie tem vários predadores, e é um verdadeiro pitéu para o lacrau e para o ouriço-cacheiro).

Em Setembro, e segundo a agência Reuters, centenas de marias-café “ocuparam” os carris das linhas ferroviárias em Clarkson, cerca de 40 km a norte de Perth, na Austrália Ocidental. À medida que eram esmagadas, atapetavam a superfície dos carris com a viscosa substância das suas entranhas. Esta “pista” escorregadia terá dificultado a travagem de um comboio, provocando o choque com um outro que se encontrava parado. Em 2002, numa “ocupação” semelhante – mas desta vez na outra ponta da Austrália –, a precaução ditou o cancelamento de 50 comboios no percurso entre Melbourne e Ballart.

Para a maria-café, as entranhas são uma mais-valia. De facto, quando ameaçada ela recorre a duas estratégias de defesa: a primeira é enrolar-se e fingir-se morta; a segunda é libertar um líquido repelente (cianeto de hidrogénio). Daí que não convém esmagá-la se a encontrar em casa, o que é provável nesta época do ano, em que ela refugia-se da chuva e do frio.

Além de servir de repasto a muitas outras espécies, a Ommatoiulus moreletii tem outro importante papel nos ecossistemas: ao alimentar-se de matéria vegetal morta (é, portanto, um animal detritívoro) recicla os nutrientes e devolvendo-os à cadeia alimentar.

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