O estranho caso da acácia que assobia, do elefante e da formiga (Selos – Uganda)

Acácia (Acacia drepanolobium). Uganda. 1969.

O surpreendente assobio até é um dos factos menos extraordinários desta história.

A acácia “assobiadora” (em inglês, “Whistling thorn”), Acacia drepanolobium, deve o nome ao som produzido pela passagem do vento nas galhas esburacadas que existem na base dos espinhos. As aberturas desta ocarina vegetal são portas feitas por formigas que vivem nas galhas. A generosidade da acácia para com as formigas não se fica pelo alojamento: a árvore também fornece alimento sob a forma de uma secreção de néctar. Na verdade, esta generosidade esconde um propósito mais interesseiro por parte da acácia, que é o de defender-se do “ataque” de herbívoros. Os espinhos que crescem aos pares nos nódulos dos ramos não dissuadem os elefantes de consumir as folhas desta árvore. No entanto, os poderosos elefantes recuam perante a ameaça das minúsculas formigas. Tal acontece porque estes insectos entram na tromba do paquiderme e ferram o tecido que, ali, é extremamente sensível.

Esta relação mutualista não é permanente. “Quando os grandes herbívoros estão ausentes a A. drepanolobium diminui o investimento que faz para sustentar as formigas simbióticas”, conclui um estudo realizado no Quénia e publicado na revista Science em 2008.

As formigas também são ardilosas na defesa dos seus interesses. Uma outra investigação, ainda no Quénia, revelou que quatro espécies de formigas colonizam a acácia assobiadora, mas, “em 99% dos casos estudados”, cada árvore é ocupada apenas por uma espécie. Uma dessa espécies, a Tetraponera penzigi, que não se alimenta de néctar, destrói as glândulas que produzem o valioso manjar, de maneira a tornar a árvore menos atractiva para as outras formigas. Já a Crematogaster nigriceps apara os botões da acácia, o que impede o crescimento dos ramos para que não contactem com árvores próximas, o que permitiria o acesso de outras formigas.

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