Para que serve a anilhagem científica?

Alcochete, segunda-feira, 28 de Janeiro. O termómetro do carro marca 4,5 ºC e ainda falta uma hora para o Sol nascer. Seis anilhadores (5 biólogos e um astrónomo) preparam-se para a segunda sessão de anilhagem de 2013. O objectivo é monitorizar a população de pássaros invernantes, através da colocação de “redes verticais”, cada uma com 18 metros de comprimento, e posterior recolha de informação e anilhagem das aves que nelas caem.

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica)

Junto à Estação de Anilhagem das Salinas do Samouco (EASS) calçam-se as galochas, testam-se as lanternas e, algumas centenas de metros adiante, monta-se a última rede, que logo é aberta, expondo os cinco bolsos horizontais onde as aves cairão. 

A comparação com o número de aves capturadas em anos anteriores aliada à análise de várias variáveis – como sexo, idade, estado das penas, nível de gordura e de massa muscular – fornece pistas sobre o estado das populações. Todas estas informações são cruciais para definir estratégias de conservação.

  

Para determinar o nível de gordura das aves sopra-se na barriga de modo a afastar as penas e expôr a região inter-clavicular

Aqui, nos terrenos da Fundação das Salinas do Samouco, decorrem dois projectos internacionais de anilhagem: Monitorização de Aves Invernantes (MAI) e Projecto Estações de Esforço Constante (PEEC). “O MAI permite-nos avaliar se as aves que invernam nesta zona estão, ou não, em declínio. O PEEC, realizado na Primavera, durante a época reprodutora, dá-nos o número de indivíduos reprodutores e uma estimativa da produtividade desse ano, ou seja, do número de crias”, explica o biólogo Afonso Rocha, 31 anos, vice-presidente da Associação Portuguesa de Anilhadores de Aves (APAA), e responsável pela sessão. Afonso acompanha as populações de aves do Samouco desde 2007. “Esta é uma área que, embora tenha pouca vegetação, possui grande diversidade e abundância de passeriformes. Isto é notório se compararmos com áreas com mais vegetação, por exemplo, a Lagoa da Albufeira, onde é difícil capturar mais de 40 aves numa manhã”, assegura o biólogo. De facto, na sessão anterior capturaram-se 84 aves.

A equipa de anilhadores (da esquerda para a direita): Márcia Pinto, da Fundação das Salinas do Samouco; Luca Bizzocchi, astrónomo; Joana Costa; Afonso Rocha; Pedro Geraldes; Maria Alho

A que se deve o sucesso destas pequenas aves? “Os números elevados resultam da manutenção de sebes e de zonas de caniço”, justifica.

Se os passeriformes estão de boa saúde, o mesmo não acontece com as limícolas. “Nas sessões que realizamos durante a noite capturamos animais que se alimentam nas salinas. Como existem problemas na gestão do nível da água nos tanques o número de limícolas tem diminuído, facto que constatamos através de contagens e de capturas, lamenta Afonso.

Felosinha (Phylloscopus collybita)

Toda esta informação integra o relatório que o biólogo envia anualmente à administração da Fundação das Salinas do Samouco.

Às 8:00 horas começa a primeira ronda. É o início de um vaivém constante entre a sala de trabalho da EASS e os cinco locais onde estão as redes. A captura e a manipulação causam stresse aos animais, pelo que tudo se faz para assegurar o seu bem-estar, como garantir que: ficam menos de 30 minutos enleados nas redes (onde também estão expostos ao frio e a predadores); assim que saem das redes passam para a tranquilizante escuridão de sacos de pano; esperam menos de uma hora na sala de observação.

Afonso e Luca carregam ao pescoço os sacos de pano com as aves capturadas na rede

Com o Sol já acima do horizonte, a planície do Samouco revela parte da biodiversidade que habita os seus 360 hectares. Junto ao caminho, a atenção dirige-se para a característica algazarra provocada por um bando de bicos-de-lacre que saltita entre a vegetação. “Esperemos que não caiam nas redes. São o maior pesadelo dos anilhadores”, brinca o biólogo Pedro Geraldes, membro da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) e um dos voluntários desta sessão. “Os estorninhos são piores – são maiores e fazem ainda mais barulho”, contrapõe Afonso.

 Pedro Geraldes a braços com uma felosinha…

O trabalho prossegue a bom ritmo. Na EASS a observação começa pela perna. No caso de já estar anilhada regista-se a informação gravada na anilha. Caso contrário coloca-se uma nova. De seguida mede-se o tarso e a asa, determina-se o sexo e idade do indivíduo, avalia-se o estado da plumagem, o nível de gordura e o de massa muscular. Por último, a pesagem, e a posterior colocação numa caixa sob a mesa, que conduz a uma abertura para o exterior do edifício.

Além da saúde das populações, a anilhagem científica de aves também possibilita a identificação de rotas migratórias, estratégias de migração, áreas utilizadas para alimentação e para repouso. Em Fevereiro, Afonso regressará ao Samouco para outra campanha de anilhagem, no âmbito do seu doutoramento, para investigar a importância das salinas face ao estuário, na alimentação das limícolas. “As aves acumulam gordura na cavidade inter-clavicular. Os isótopos de enxofre presentes nessa gordura traduzem diferentes concentrações de salinidade, pelo que indicarão se elas alimentam-se mais no estuário ou nas salinas”, explica.

Toutinegras-de-cabeça-preta (Sylvia melanocephala)

Para já, Afonso continua atarefado a tomar nota das medidas apregoadas pelos outros anilhadores. Até ao momento, a maioria das aves tem menos de dois anos, pelo que é bastante saudada a recaptura de uma toutinegra-de-cabeça-preta, natural do Samouco, com mais de 5 anos. Em sessões anteriores o record deste dia foi largamente superado: “A ave mais velha que encontrámos foi um garajau-comum (Sterna sandvicensis), anilhado na Suécia e recapturado aqui, com 23 anos. Também recapturámos um borrelho com 18 anos, anilhado aqui durante os estudos preliminares para a ponte Vasco da Gama”, conta Afonso. E que ave veio de mais longe? “Há limícolas vindas da Islândia e outras da Polónia”.

Estação de Anilhagem das Salinas do Samouco. Luca, Afonso e Maria

Já passa da hora de almoço. A sessão de anilhagem chega ao fim sem incidentes de maior. Todas as aves estão bem, incluindo as três felosas mais ariscas que escaparam das mãos dos anilhadores e voam rente ao tecto. “Aquela janelita fica aberta. Elas acabam por sair”, assegura o vice-presidente da APAA. Balanço da sessão? Das 115 aves capturadas, pertencentes a 12 espécies, 30 estavam já marcadas e 85 foram anilhadas. Os estorninhos e os bicos-de-lacre deixaram as redes em paz, mas 93 felosinhas e um tordo com “penas” na venta encarregaram-se de manter os anilhadores ocupados.

Os resultados das várias campanhas de anilhagem realizadas no país encontram-se na Central Nacional de Anilhagem, entidade do Instituto da Conservação da Natureza (ICN).

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