A cor de Lisboa

Lisboa é o habitat permanente de 547.631 humanos – segundos os Censos de 2011 -, é o local de trabalho de outras centenas de milhares, e é destino turístico de milhões de estrangeiros. Saberão eles de que cor é a cidade? Terá Lisboa uma cor, ou terá várias entre as 16 milhões que a visão humana (principal sentido através do qual o Homo sapiens percepciona o mundo) distingue?

“Alain Tanner, cineasta civilizado, não esteve com mais aquelas e chamou a isto Cidade Branca (…) – que cegueira a deste Tanner”, desabafa o escritor José Cardoso Pires em Lisboa – Livro de Bordo, referindo-se ao filme A Cidade Branca daquele realizador suíço, rodado na capital portuguesa. No livro, Cardoso Pires alerta para as “impetuosidades duma luz, que no mesmo lugar, no mesmo instante e na mesma cor nunca se repete”.

A cor dos edifícios de Lisboa, além das tintas que lhe dão vida, resulta de um diálogo permanente com o sol, com o azul de um céu varrido pelo vento, e com o enorme espelho que é o Tejo. Isto, claro, nas colinas, porque o resto da cidade é uma mistura incaracterística, onde até cabem os devaneios arquitectónicos de Tomás Taveira.

Nos bairros históricos cada época teve a sua gama de cores. Os muçulmanos apenas concebiam revestimentos brancos, habituados que estavam ao sol forte de África. Mais tarde, com os romanos, as cores surgiram nos interiores como decoração. Até ao final do século XVIII Lisboa foi, de facto, uma cidade branca devido à utilização da cal. Esta, além de abundante e acessível, servia de desinfectante no combate às epidemias (como é uma substância alcalina elimina muitos microorganismos causadores de doenças).

 

Após o terramoto de 1755 nasceu uma nova Lisboa. A cidade reconstruída pelo Marquês de Pombal queria-se moderna, de modo a reflectir o estatuto de capital de um império. Na Baixa, as ruas tortuosas características dos bairros antigos deram lugar a amplas avenidas e praças, de acordo com o espírito iluminista da época. Aqui e ali surgiram as cores que os solos disponibilizavam: o amarelo-ocre e o vermelho-almagre das argilas.

 

 A estranheza da nova paleta traduziu-se no baptismo dos novos edifícios – a Casa Amarela (no Cais de José António Pereira), Rua das Janelas Verdes ou Palácio Azul (na Praça da Alegria). O Terreiro do Paço, um dos símbolos desta nova urbe, ostentava o mesmo amarelo forte que apresenta hoje (já foi rosa e verde-oliva, cor sugerida por Carlos Botelho, um dos pintores que melhor retratou Lisboa).

No século XIX o leque cromático alargou-se, fruto do desenvolvimento da indústria química. Em 1834, para que se distinguirem da profusão de cores reinantes, os edifícios públicos, conventos e quartéis foram pintados de amarelo.

Os movimentos artísticos que se estenderam à arquitectura impregnaram-na com tons próprios. Por exemplo, nas décadas de 20, 30 e 40 século XX a Art Déco trouxe a cor de grão, a de camurça, o violeta, os cinzas e os azuis. Em 1934 a Comissão Estética da Cidade de Lisboa impediu o uso livre da cor nas fachadas e recomendou o uso do ocre (um período apelidado por muitos críticos de “a grande epidemia amarela”).

Esta foi a segunda “invasão” amarela em 100 anos, o que originou um extenso debate sobre “A cor de Lisboa”, que culminou em três dias de conferências promovidas pela Associação Amigos de Lisboa, em 1949. Nesse ano a revista Olisipo apresentou os resultados das conferências. O texto continha um aditamento, publicado um ano antes no Correio do Sul, da autoria de João Triste. O excerto que se segue deste aditamento ilustra bem as cores de Lisboa:

Seja com nome suposto, ou com língua tagarela, e voto livre ou imposto, toda a gente de mau gosto, quer a Lisboa ‘amarela’. 

 N’uma teimosa atitude, que a ilusão aconselha, mas que o tempo desilude, os dirigentes do M.U.D., sonham Lisboa ‘vermelha’.

A figura macilenta, do poeta triste e mono, que de tudo se lamenta, canta os poentes de Outono, n’uma Lisboa ‘cinzenta’.

 

 Carteiristas da vanguarda, que manobram às escuras, fugindo aos olhos da guarda, para as suas aventuras, preferem Lisboa ‘parda’.

Em atitudes gentis, de vida deliciosa, amaneirando os quadris, querem todos os «pi-pis», a Lisboa ‘cor-de-rosa’’”.

À entrada dos anos 80 a arquitectura marcada pelo pós-modernismo, que por definição é caracterizado pela “ausência de unidade programática”, coloriu a capital ainda mais. Foi nesta década que iniciou-se a recuperação dos bairros históricos, que ganhou maior visibilidade com a aproximação do evento Lisboa Capital Europeia da Cultura, em 1994.

Em 1993 a Câmara Municipal alertou para “um mau entendimento da utilização da cor” e organizou um simpósio com arquitectos, engenheiros, médicos, historiadores e artistas plásticos. A partir do momento em que se definiram as “cores históricas” da capital o debate centrou-se na intensidade da paleta a utilizar na reabilitação dos edifícios.

O ensaio na Sétima Colina foi muito criticado, mas logo as cores harmonizaram-se com a paisagem (por vezes devido à tinta de má qualidade, que logo despegou das paredes). Como dizia o pintor Abel Manta:               “Deixem-nos fazer com as cores tudo o que quiserem, ainda que nos pareçam disparates, porque (…) o sol é nesta terra quem tem a palavra; ele encarrega-se de harmonizar, de meter na ordem, de dar à cidade o que ela tem de característico, que é a riqueza do seu colorido”.

 

O arquitecto Raul Ceregeiro, um dos responsáveis pela reabilitação dos bairros históricos, disse que “a cor é um factor importante de estímulo da cidadania”. O escritor Ramalho Ortigão concordaria: “Se todos têm a sua patriazinha dentro de um espaço, maior ou menor sobre a terra, porque não há-de ter cada um, por pátria pequena  e amá-la a simples casa de renda que serena e longamente habita?”, disse.

Para respeitar as características próprias de cada bairro, e as de quem o habita, a Direcção Municipal de Reabilitação Urbana de Lisboa criou então  Gabinetes Técnicos nos bairros históricos (Alfama e Colina do Castelo, Bairro Alto e Bica, Madragoa e S. Paulo) e uma Divisão de Núcleos Dispersos (Carnide-Luz, Paço do Lumiar, Rua do Lumiar, Ameixoeira, Olivais-Velho). Por exemplo, em 1996, um levantamento das cores, número de camadas e tipo de pigmento de 112 edifícios (fachadas e socos) da freguesia do Castelo – feito pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) – revelou que alguns edifícios tinham mais de 20 camadas. As cores predominantes nas fachadas eram: amarelo-ocre (em 51 fachadas), branco (39), cinzento (9), rosa-almagre (8), azul (4) e castanho (1).

A escolha final de cada cor dependeu também dos jogos de luz. Por exemplo, usam-se tons claros em ruas estreitas, enquanto que os escuros servem para mascarar a maior dimensão de um edifício. Carlos Botelho dizia sobre a cor: “Com ela nós podemos agrupar ou desagrupar casas, torná-las altas ou baixas, pequenas ou grandes, enaltecê-las ou fazê-las desaparecer dentro da paisagem”.

Quem olha Lisboa do cimo das colinas descobre uma outra “fachada”, a dos telhados, que acrescenta um tom de tijolo à paisagem.

Há ainda o branco e o preto das calçadas,

e há os azulejos, que criam fantásticos jogos de luz, apadrinhados pelo azul do rio e pelo amarelo e vermelho do sol.

É esta mistura singular que faz de Lisboa uma das mais belas capitais europeias.

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